Eu mesmo guardo ainda no coração a recordação do primeiro pároco
junto de quem exerci o meu ministério de jovem sacerdote: deixou-me
o exemplo de uma dedicação sem reservas ao próprio serviço
sacerdotal, a ponto de encontrar a morte durante o próprio ato de
levar o viático a um doente grave. Depois repasso na memória os
inumeráveis irmãos que encontrei e encontro, inclusive durante as
minhas viagens pastorais às diversas nações, generosamente
empenhados no exercício diário do seu ministério sacerdotal. Mas a
expressão utilizada pelo Santo Cura d’Ars evoca também o Coração
traspassado de Cristo com a coroa de espinhos que O envolve. E isto
leva o pensamento a deter-se nas inumeráveis situações de sofrimento
em que se encontram imersos muitos sacerdotes, ou porque
participantes da experiência humana da dor na multiplicidade das
suas manifestações, ou porque incompreendidos pelos próprios
destinatários do seu ministério: como não recordar tantos sacerdotes
ofendidos na sua dignidade, impedidos na sua missão e, às vezes,
mesmo perseguidos até ao supremo testemunho do sangue?
Infelizmente existem também situações, nunca suficientemente
deploradas, em que é a própria Igreja a sofrer pela infidelidade de
alguns dos seus ministros. Daí advém então para o mundo motivo de
escândalo e de repulsa. O máximo que a Igreja pode recavar de tais
casos não é tanto a acintosa relevação das fraquezas dos seus
ministros, como sobretudo uma renovada e consoladora consciência da
grandeza do dom de Deus, concretizado em figuras esplêndidas de
generosos pastores, de religiosos inflamados de amor por Deus e
pelas almas, de diretores espirituais esclarecidos e pacientes. A
este respeito, os ensinamentos e exemplos de S. João Maria Vianney
podem oferecer a todos um significativo ponto de referência. O Cura
d’Ars era humilíssimo, mas consciente de ser, enquanto padre, um dom
imenso para o seu povo: «Um bom pastor, um pastor segundo o coração
de Deus, é o maior tesouro que o bom Deus pode conceder a uma
paróquia e um dos dons mais preciosos da misericórdia divina».
[3] Falava do sacerdócio como se não
conseguisse alcançar plenamente a grandeza do
dom e da
tarefa confiados a uma criatura humana: «Oh como é grande o
padre! (…) Se lhe fosse dado compreender-se a si mesmo, morreria.
(…) Deus obedece-lhe: ele pronuncia duas palavras e, à sua voz,
Nosso Senhor desce do céu e encerra-se numa pequena hóstia».
[4] E, ao explicar aos seus fiéis a
importância dos sacramentos, dizia: «Sem o sacramento da Ordem, não
teríamos o Senhor. Quem O colocou ali naquele sacrário? O sacerdote.
Quem acolheu a vossa alma no primeiro momento do ingresso na vida? O
sacerdote. Quem a alimenta para lhe dar a força de realizar a sua
peregrinação? O sacerdote. Quem a há-de preparar para comparecer
diante de Deus, lavando-a pela última vez no sangue de Jesus Cristo?
O sacerdote, sempre o sacerdote. E se esta alma chega a morrer [pelo
pecado], quem a ressuscitará, quem lhe restituirá a serenidade e a
paz? Ainda o sacerdote. (…) Depois de Deus, o sacerdote é tudo! (…)
Ele próprio não se entenderá bem a si mesmo, senão no céu».
[5] Estas afirmações, nascidas do
coração sacerdotal daquele santo pároco, podem parecer excessivas.
Nelas, porém, revela-se a sublime consideração em que ele tinha o
sacramento do sacerdócio. Parecia subjugado por uma sensação de
responsabilidade sem fim: «Se compreendêssemos bem o que um padre é
sobre a terra, morreríamos: não de susto, mas de amor. (…) Sem o
padre, a morte e a paixão de Nosso Senhor não teria servido para
nada. É o padre que continua a obra da Redenção sobre a terra (…)
Que aproveitaria termos uma casa cheia de ouro, senão houvesse
ninguém para nos abrir a porta? O padre possui a chave dos tesouros
celestes: é ele que abre a porta; é o ecônomo do bom Deus; o
administrador dos seus bens (…) Deixai uma paróquia durante vinte
anos sem padre, e lá adorar-se-ão as bestas. (…) O padre não é padre
para si mesmo, é-o para vós».
[6]
Tinha chegado a Ars, uma pequena aldeia com 230 habitantes,
precavido pelo Bispo de que iria encontrar uma situação
religiosamente precária: «Naquela paróquia, não há muito amor de
Deus; infundi-lo-eis vós». Por conseguinte, achava-se plenamente
consciente de que devia ir para lá a fim de encarnar a presença de
Cristo, testemunhando a sua ternura salvífica: «[Meu Deus],
concedei-me a conversão da minha paróquia; aceito sofrer tudo aquilo
que quiserdes por todo o tempo da minha vida!»: foi com esta oração
que começou a sua missão.
[7] E, à conversão da sua paróquia,
dedicou-se o Santo Cura com todas as suas energias, pondo no cume de
cada uma das suas ideias a formação cristã do povo a ele confiado.
Amados irmãos no sacerdócio, peçamos ao Senhor Jesus a graça de
podermos também nós assimilar o método pastoral de S. João Maria
Vianney. A primeira coisa que devemos aprender é a sua total
identificação com o próprio ministério. Em Jesus, tendem a coincidir
Pessoa e Missão: toda a sua ação salvífica era e é expressão do seu
«Eu filial» que, desde toda a eternidade, está diante do Pai em
atitude de amorosa submissão à sua vontade. Com modesta mas
verdadeira analogia, também o sacerdote deve ansiar por esta
identificação. Não se trata, certamente, de esquecer que a eficácia
substancial do ministério permanece independentemente da santidade
do ministro; mas também não se pode deixar de ter em conta a
extraordinária frutificação gerada do encontro entre a santidade
objetiva do ministério e a subjetiva do ministro. O Cura d’Ars
principiou imediatamente este humilde e paciente trabalho de
harmonização entre a sua vida de ministro e a santidade do
ministério que lhe estava confiado, decidindo «habitar», mesmo
materialmente, na sua igreja paroquial: «Logo que chegou, escolheu a
igreja por sua habitação. (…) Entrava na igreja antes da aurora e
não saía de lá senão à tardinha depois do
Angelus. Quando
precisavam dele, deviam procurá-lo lá»: lê-se na primeira biografia.
[8]
O exagero devoto do pio hagiógrafo não deve fazer-nos esquecer o
fato de que o Santo Cura soube também «habitar» ativamente em
todo o território da sua paróquia: visitava sistematicamente os
doentes e as famílias; organizava missões populares e festas dos
Santos Patronos; recolhia e administrava dinheiro para as suas obras
sócio-caritativas e missionárias; embelezava a sua igreja e dotava-a
de alfaias sagradas; ocupava-se das órfãs da «Providence» (um
instituto fundado por ele) e das suas educadoras; tinha a peito a
instrução das crianças; fundava confrarias e chamava os leigos para
colaborar com ele.
O seu exemplo induz-me a evidenciar os espaços de colaboração que é
imperioso estender cada vez mais aos fiéis leigos, com os quais os
presbíteros formam um único povo sacerdotal
[9] e no meio dos quais, em virtude do
sacerdócio ministerial, se encontram «para os levar todos à unidade,
“amando-se uns aos outros com caridade fraterna, e tendo os outros
por mais dignos” (
Rm 12, 10)».
[10] Neste contexto, há que recordar o
caloroso e encorajador convite feito pelo
Concílio Vaticano II aos
presbíteros para que «reconheçam e promovam sinceramente a dignidade
e participação própria dos leigos na missão da Igreja. Estejam
dispostos a ouvir os leigos, tendo fraternalmente em conta os seus
desejos, reconhecendo a experiência e competência deles nos diversos
campos da atividade humana, para que, juntamente com eles, saibam
reconhecer os sinais dos tempos».
[11]
O Santo Cura ensinava os seus paroquianos sobretudo com o testemunho
da vida. Pelo seu exemplo, os fiéis aprendiam a rezar, detendo-se de
bom grado diante do sacrário para uma visita a Jesus Eucaristia.
[12] «Para rezar bem – explicava-lhes o
Cura –, não há necessidade de falar muito. Sabe-se que Jesus está
ali, no tabernáculo sagrado: abramos-Lhe o nosso coração,
alegremo-nos pela sua presença sagrada. Esta é a melhor oração».
[13] E exortava: «Vinde à comunhão, meus
irmãos, vinde a Jesus. Vinde viver d’Ele para poderdes viver com
Ele».
[14] «É verdade que não sois dignos, mas
tendes necessidade!».
[15] Esta educação dos fiéis
para a
presença eucarística e
para a comunhão adquiria um
eficácia muito particular, quando o viam celebrar o Santo Sacrifício
da Missa. Quem ao mesmo assistia afirmava que «não era possível
encontrar uma figura que exprimisse melhor a adoração. (...)
Contemplava a Hóstia amorosamente».
[16] Dizia ele: «Todas as boas obras
reunidas não igualam o valor do sacrifício da Missa, porque aquelas
são obra de homens, enquanto a Santa Missa é obra de Deus».
[17] Estava convencido de que todo o
fervor da vida de um padre dependia da Missa: «A causa do
relaxamento do sacerdote é porque não presta atenção à Missa! Meu
Deus, como é de lamentar um padre que celebra [a Missa] como se
fizesse um coisa ordinária!».
[18] E, ao celebrar, tinha tomado o
costume de oferecer sempre também o sacrifício da sua própria vida:
«Como faz bem um padre oferecer-se em sacrifício a Deus todas as
manhãs!».
[19]
Esta sintonia pessoal com o Sacrifício da Cruz levava-o – por um
único movimento interior – do altar ao confessionário. Os sacerdotes
não deveriam jamais resignar-se a ver os seus confessionários
desertos, nem limitar-se a constatar o menosprezo dos fiéis por este
sacramento. Na França, no tempo do Santo Cura d’Ars, a confissão não
era mais fácil nem mais frequente do que nos nossos dias, pois a
tormenta revolucionária tinha longamente sufocado a prática
religiosa. Mas ele procurou de todos os modos, com a pregação e o
conselho persuasivo, fazer os seus paroquianos redescobrirem o
significado e a beleza da Penitência sacramental, apresentando-a
como uma exigência íntima da Presença eucarística. Pôde assim dar
início a um
círculo virtuoso. Com as longas permanências na
igreja junto do sacrário, fez com que os fiéis começassem a
imitá-lo, indo até lá visitar Jesus, e ao mesmo tempo estivessem
seguros de que lá encontrariam o seu pároco, disponível para os
ouvir e perdoar. Em seguida, a multidão crescente dos penitentes,
provenientes de toda a França, haveria de o reter no confessionário
até 16 horas por dia. Dizia-se então que Ars se tinha tornado «o
grande hospital das almas».
[20] «A graça que ele obtinha [para a
conversão dos pecadores] era tão forte que aquela ia procurá-los sem
lhes deixar um momento de trégua!»: diz o primeiro biógrafo.
[21] E assim o pensava o Santo Cura
d’Ars, quando afirmava: «Não é o pecador que regressa a Deus para
Lhe pedir perdão, mas é o próprio Deus que corre atrás do pecador e
o faz voltar para Ele».
[22] «Este bom Salvador é tão cheio de
amor que nos procura por todo o lado».
[23]
Todos nós, sacerdotes, deveríamos sentir que nos tocam pessoalmente
estas palavras que ele colocava na boca de Cristo: «Encarregarei os
meus ministros de anunciar aos pecadores que estou sempre pronto a
recebê-los, que a minha misericórdia é infinita».
[24] Do Santo Cura d’Ars, nós,
sacerdotes, podemos aprender não só uma inexaurível confiança no
sacramento da Penitência que nos instigue a colocá-lo no centro das
nossas preocupações pastorais, mas também o método do «diálogo de
salvação» que nele se deve realizar. O Cura d’Ars tinha maneiras
diversas de comportar-se segundo os vários penitentes. Quem vinha ao
seu confessionário atraído por uma íntima e humilde necessidade do
perdão de Deus, encontrava nele o encorajamento para mergulhar na
«torrente da misericórdia divina» que, no seu ímpeto, tudo arrasta e
depura. E se aparecia alguém angustiado com o pensamento da sua
debilidade e inconstância, temeroso por futuras quedas, o Cura d’Ars
revelava-lhe o segredo de Deus com um discurso de comovente beleza:
«O bom Deus sabe tudo. Ainda antes de vos confessardes, já sabe que
voltareis a pecar e todavia perdoa-vos. Como é grande o amor do
nosso Deus, que
vai até ao ponto de esquecer voluntariamente o
futuro, só para poder perdoar-nos!».
[25] Diversamente, a quem se acusava de
forma tíbia e quase indiferente, expunha, através das suas próprias
lágrimas, a séria e dolorosa evidência de quão «abominável» fosse
aquele comportamento. «Choro, porque vós não chorais»:
[26] exclamava ele. «Se ao menos o
Senhor não fosse assim tão bom!
Mas é assim bom! Só um
bárbaro poderia comportar-se assim diante de um Pai tão bom!».
[27] Fazia brotar o arrependimento no
coração dos tíbios, forçando-os a verem com os próprios olhos o
sofrimento de Deus, causado pelos pecados, quase «encarnado» no
rosto do padre que os atendia de confissão. Entretanto a quem se
apresentava já desejoso e capaz de uma vida espiritual mais
profunda, abria-lhe de par em par as profundidades do amor,
explicando a inexprimível beleza de poder viver unidos a Deus e na
sua presença: «Tudo sob o olhar de Deus, tudo com Deus, tudo para
agradar a Deus. (...) Como é belo!»
[28] E ensinava-lhes a rezar assim: «Meu
Deus, dai-me a graça de Vos amar tanto quanto é possível que eu Vos
ame!».
[29]
No seu tempo, o Cura d’Ars soube transformar o coração e a vida de
muitas pessoas, porque conseguiu fazer-lhes sentir o amor
misericordioso do Senhor. Também hoje é urgente igual anúncio e
testemunho da verdade do Amor:
Deus caritas est (
1 Jo
4, 8). Com a Palavra e os Sacramentos do seu Jesus, João Maria
Vianney sabia instruir o seu povo, ainda que frequentemente
suspirava convencido da sua pessoal inaptidão a ponto de ter
desejado diversas vezes subtrair-se às responsabilidades do
ministério paroquial de que se sentia indigno. Mas, com exemplar
obediência, ficou sempre no seu lugar, porque o consumia a paixão
apostólica pela salvação das almas. Procurava aderir totalmente à
própria vocação e missão por meio de uma severa ascese: «Para nós,
párocos, a grande desdita – deplorava o Santo – é entorpecer-se a
alma»,
[30] entendendo, com isso, o perigo de o
pastor se habituar ao estado de pecado ou de indiferença em que
vivem muitas das suas ovelhas. Com vigílias e jejuns, punha freio ao
corpo, para evitar que opusesse resistência à sua alma sacerdotal. E
não se esquivava a mortificar-se a si mesmo para bem das almas que
lhe estavam confiadas e para contribuir para a expiação dos muitos
pecados ouvidos em confissão. Explicava a um colega sacerdote:
«Dir-vos-ei qual é a minha receita: dou aos pecadores uma penitência
pequena e o resto faço-o eu no lugar deles».
[31] Independentemente das penitências
concretas a que se sujeitava o Cura d’Ars, continua válido para
todos o núcleo do seu ensinamento: as almas custam o sangue de
Cristo e o sacerdote não pode dedicar-se à sua salvação se se recusa
a contribuir com a sua parte para o «alto preço» da redenção.
No mundo atual, não menos do que nos tempos difíceis do Cura d’Ars,
é preciso que os presbíteros, na sua vida e ação, se distingam por
um vigoroso testemunho evangélico. Observou, justamente,
Paulo VI que «o homem
contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os
mestres ou então, se escuta os mestres, é porque eles são
testemunhas».
[32] Para que não se forme um vazio
existencial em nós e fique comprometida a eficácia do nosso
ministério, é preciso não cessar de nos interrogarmos: «Somos
verdadeiramente permeados pela Palavra de Deus? É verdade que esta é
o alimento de que vivemos, mais de que o sejam o pão e as coisas
deste mundo? Conhecemo-la verdadeiramente? Amamo-la? De tal modo nos
ocupamos interiormente desta palavra, que a mesma dá realmente um
timbre à nossa vida e forma o nosso pensamento?».
[33] Assim como Jesus chamou os Doze
para estarem com Ele (cf.
Mc 3, 14) e só depois é que os
enviou a pregar, assim também nos nossos dias os sacerdotes são
chamados a assimilar aquele «novo estilo de vida» que foi inaugurado
pelo Senhor Jesus e assumido pelos Apóstolos.
[34]
Foi precisamente a adesão sem reservas a este «novo estilo de vida»
que caracterizou o trabalho ministerial do Cura d’Ars. O
Papa João XXIII, na carta
encíclica
Sacerdotii nostri primordia
– publicada em 1959, centenário da morte de S. João Maria Vianney –,
apresentava a sua fisionomia ascética referindo-se de modo especial
ao tema dos «três conselhos evangélicos», considerados necessários
também para os presbíteros: «Embora, para alcançar esta santidade de
vida, não seja imposta ao sacerdote como própria do estado clerical
a prática dos conselhos evangélicos, entretanto esta representa para
ele, como para todos os discípulos do Senhor, o caminho regular da
santificação cristã».
[35] O Cura d’Ars soube viver os
«conselhos evangélicos» segundo modalidades apropriadas à sua
condição de presbítero. Com efeito, a sua
pobreza não foi a
mesma de um religioso ou de um monge, mas a requerida a um padre:
embora manejasse com muito dinheiro (dado que os peregrinos mais
abonados não deixavam de se interessar pelas suas obras
sócio-caritativas), sabia que tudo era dado para a sua igreja, os
seus pobres, os seus órfãos, as meninas da sua «
Providence»,
[36] as suas famílias mais indigentes.
Por isso, ele «era rico para dar aos outros e era muito pobre para
si mesmo».
[37] Explicava: «O meu segredo é
simples: dar tudo e não guardar nada».
[38] Quando se encontrava com as mãos
vazias, dizia contente aos pobres que se lhe dirigiam: «Hoje sou
pobre como vós, sou um dos vossos».
[39] Deste modo pôde, ao fim da vida,
afirmar com absoluta serenidade: «Não tenho mais nada. Agora o bom
Deus pode chamar-me quando quiser!».
[40] Também a sua
castidade era
aquela que se requeria a um padre para o seu ministério. Pode-se
dizer que era a castidade conveniente a quem deve habitualmente
tocar a Eucaristia e que habitualmente a fixa com todo o entusiasmo
do coração e com o mesmo entusiasmo a dá aos seus fiéis. Dele se
dizia que «a castidade brilhava no seu olhar», e os fiéis
apercebiam-se disso quando ele se voltava para o sacrário fixando-o
com os olhos de um enamorado.
[41] Também a
obediência de S.
João Maria Vianney foi toda encarnada na dolorosa adesão às
exigências diárias do seu ministério. É sabido como o atormentava o
pensamento da sua própria inaptidão para o ministério paroquial e o
desejo que tinha de fugir «para chorar a sua pobre vida, na
solidão».
[42] Somente a obediência e a paixão
pelas almas conseguiam convencê-lo a continuar no seu lugar. A si
próprio e aos seus fiéis explicava: «Não há duas maneiras boas de
servir a Deus. Há apenas uma: servi-Lo como Ele quer ser servido».
[43] A regra de ouro para levar uma vida
obediente parecia-lhe ser esta: «Fazer só aquilo que pode ser
oferecido ao bom Deus».
[44]
No contexto da espiritualidade alimentada pela prática dos conselhos
evangélicos, aproveito para dirigir aos sacerdotes, neste Ano a eles
dedicado, um convite particular para saberem acolher a nova
primavera que, em nossos dias, o Espírito está a suscitar na Igreja,
através nomeadamente dos Movimentos Eclesiais e das novas
Comunidades. «O Espírito é multiforme nos seus dons. (…) Ele sopra
onde quer. E o faz de maneira inesperada, em lugares imprevistos e
segundo formas precedentemente inimagináveis (…); mas demonstra-nos
também que Ele age em vista do único Corpo e na unidade do único
Corpo».
[45] A propósito disto, vale a indicação
do decreto
Presbyterorum ordinis:
«Sabendo discernir se os espíritos vêm de Deus, [os presbíteros]
perscrutem com o sentido da fé, reconheçam com alegria e promovam
com diligência os multiformes carismas dos leigos, tanto os mais
modestos como os mais altos».
[46] Estes dons, que impelem não poucos
para uma vida espiritual mais elevada, podem ser de proveito não só
para os fiéis leigos mas também para os próprios ministros. Com
efeito, da comunhão entre ministros ordenados e carismas pode brotar
«um válido impulso para um renovado compromisso da Igreja no anúncio
e no testemunho do Evangelho da esperança e da caridade em todos os
recantos do mundo».
[47] Queria ainda acrescentar, apoiado
na exortação apostólica
Pastores dabo vobisdo
Papa João Paulo II, que o
ministério ordenado tem uma radical «
forma comunitária» e
pode ser cumprido apenas na comunhão dos presbíteros com o seu
Bispo.
[48] É preciso que esta comunhão entre
os sacerdotes e com o respectivo Bispo, baseada no sacramento da
Ordem e manifestada na concelebração eucarística, se traduza nas
diversas formas concretas de uma fraternidade sacerdotal efetiva e
afetiva.
[49] Só deste modo é que os sacerdotes
poderão viver em plenitude o dom do celibato e serão capazes de
fazer florir comunidades cristãs onde se renovem os prodígios da
primeira pregação do Evangelho.
O Ano Paulino, que está a chegar ao fim, encaminha o nosso
pensamento também para o Apóstolo das nações, em quem refulge aos
nossos olhos um modelo esplêndido de sacerdote, totalmente «doado»
ao seu ministério. «O amor de Cristo nos impele – escrevia ele –, ao
pensarmos que um só morreu por todos e que todos, portanto,
morreram» (2 Cor 5, 14). E acrescenta: Ele «morreu por todos,
para que os vivos deixem de viver para si próprios, mas vivam para
Aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2 Cor 5, 15). Que
programa melhor do que este poderia ser proposto a um sacerdote
empenhado a avançar pela estrada da perfeição cristã?
Amados sacerdotes, a celebração dos cento e cinquenta anos da morte
de S. João Maria Vianney (1859) segue-se imediatamente às
celebrações há pouco encerradas dos cento e cinquenta anos das
aparições de Lourdes (1858). Já em 1959, o Beato
Papa João XXIII anotara:
«Pouco antes que o Cura d’Ars concluísse a sua longa carreira cheia
de méritos, a Virgem Imaculada aparecera, noutra região da França, a
uma menina humilde e pura para lhe transmitir uma mensagem de oração
e penitência, cuja imensa ressonância espiritual há um século que é
bem conhecida. Na realidade, a vida do santo sacerdote, cuja
comemoração celebramos, fora de antemão uma viva ilustração das
grandes verdades sobrenaturais ensinadas à vidente de Massabielle.
Ele próprio nutria pela Imaculada Conceição da Santíssima Virgem uma
vivíssima devoção, ele que, em 1836, tinha consagrado a sua paróquia
a Maria concebida sem pecado e havia de acolher com tanta fé e
alegria a definição dogmática de 1854».
[50] O Santo Cura d’Ars sempre recordava
aos seus fiéis que «Jesus Cristo, depois de nos ter dado tudo aquilo
que nos podia dar, quis ainda fazer-nos herdeiros de quanto Ele tem
de mais precioso, ou seja, da sua Santa Mãe».
[51]
À Virgem Santíssima entrego este Ano Sacerdotal, pedindo-Lhe para
suscitar no ânimo de cada presbítero um generoso relançamento
daqueles ideais de total doação a Cristo e à Igreja que inspiraram o
pensamento e a ação do Santo Cura d’Ars. Com a sua fervorosa vida de
oração e o seu amor apaixonado a Jesus crucificado, João Maria
Vianney alimentou a sua quotidiana doação sem reservas a Deus e à
Igreja. Possa o seu exemplo suscitar nos sacerdotes aquele
testemunho de unidade com o Bispo, entre eles próprios e com os
leigos que é tão necessário hoje, como o foi sempre. Não obstante o
mal que existe no mundo, ressoa sempre atual a palavra de Cristo aos
seus apóstolos, no Cenáculo: «No mundo sofrereis tribulações. Mas
tende confiança: Eu venci o mundo» (Jo 16, 33). A fé no
divino Mestre dá-nos a força para olhar confiadamente o futuro.
Amados sacerdotes, Cristo conta convosco. A exemplo do Santo Cura d’Ars,
deixai-vos conquistar por Ele e sereis também vós, no mundo atual,
mensageiros de esperança, de reconciliação, de paz.
Com a minha bênção.
Vaticano, 16 de Junho de 2009.
BENEDICTUS PP. XVI